Chuva
A tarde escurece,
é o céu, lento, a se fechar,
como pálpebra cansada
que há muito não dorme.
Do café, o vapor
quente sobe em espirais
breves, fantasma morno
contra o frio do ar.
E então a chuva
começa a cair.
E o silêncio da tarde
a se esvair,
dissolvendo-se em gotas
que escorrem pelos
cantos do tempo.
Recordo livros
que ainda não li,
páginas intactas
como promessas
adiadas de um
amor perdido.
E a chuva prossegue,
fluida, incessante:
sobre o verde vivo das folhas,
sobre as poças que refletem
o azul do céu,
sobre o teto da casa,
sobre minha alma, que
a aguarda.
É o céu que chora,
é a chuva que cai.
É seu pranto
que silencia a
tarde a se extinguir.
— Tiago Amaral


