segunda-feira, 6 de abril de 2026

Chuva

Chuva

A tarde escurece,
é o céu, lento, a se fechar,
como pálpebra cansada
que há muito não dorme.

Do café, o vapor
quente sobe em espirais
breves, fantasma morno
contra o frio do ar.

E então a chuva
começa a cair.
E o silêncio da tarde
a se esvair,
dissolvendo-se em gotas
que escorrem pelos
cantos do tempo.

Recordo livros
que ainda não li,
páginas intactas
como promessas
adiadas de um
amor perdido.

E a chuva prossegue,
fluida, incessante:

sobre o verde vivo das folhas,
sobre as poças que refletem
o azul do céu,
sobre o teto da casa,
sobre minha alma, que
a aguarda.

É o céu que chora,
é a chuva que cai.
É seu pranto
que silencia a
tarde a se extinguir.

— Tiago Amaral




domingo, 5 de abril de 2026

Vale

Ó estações,
deslizam e retornam
como o sopro leve
sobre os veles
adormecidos.

Canta o vento,
em secreta sintonia,
tecendo harmonias invisíveis
no azul profundo do céu.

No vale, a beleza repousa
como um segredo ancestral.
O céu se ergue em silencio,
e o sol, em gesto íntimo
de amor, beija a face da terra.

Quanta vida irrompe,
latente, luminosa.
Contemplam meus olhos
este instante magico,
quase sagrado.


— Tiago Amaral





sábado, 4 de abril de 2026

Ninfa

Uma fada,
a encantar
a natureza?
És a mais bela
que vi.
Criatura gentil,
habitavas
o bosque.

Ou serias, talvez,
uma ninfa,
a mais pura
das ninfas?
Onde estás agora,
doce presença?

É por ti
que minha alma
anseia,
em sonhos
que ardem
em febre;
e o bosque
perde a vida
quando tua ausência
o silencia.

Nos olhos,
trago a esperança
de, um dia,
tornar a ver-te,
ó visão fugidia.

E que eu possa,
ao menos,
contemplar-te,
meu céu,
antes que a morte
me leve.

Sem amar-te,
morrendo, enfim,
no amor
que não vivi.

— Tiago Amaral



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Anjo

Anjo que
ao solo desce,
e, no pó do 
mundo, pisa.

Nunca vi
face mais bela,
nem olhos
de tão doce 
abismo.

No jardim,
secreto, te procuro,
flor sem nome.
Procuro
essa forma
quase divina,
quase sonho.

Onde estás, anjo?
Por que tardas?
Não surges
para, em teu encanto,
cativar-me os olhos
e inundar de luz
meu coração?

— Tiago Amaral