sexta-feira, 17 de abril de 2026

Passagem

Quantas tardes,
rosas dispersas,
se desfazem no ar.
Folhas mortas,
ao sopro de um
vento que não cessa.

Onde estás?
Que é isto que agora
comtemplo?
Olhos, abismos lúcidos,
atravessando-me a alma.

Quem és tu?
Ó anjo, ó fulgor.
Passas, não tardas,
e ainda assim levaste
meu coração contigo.

Devolve-me,
não o coração,
mas a luz,
essa vertigem clara
da tua glória.

— Tiago Amaral



Efêmera Aparição

Oh, tristeza,
que estranho
encantamento vi
nascer entre as
amoras silvestres.

A vida, tão breve,
já se despedia no sopro
do instante.

Havia ternura nos olhos,
uma luz quase irreal na
face, como se o mundo
ali se rendesse por um
segundo.

Criatura leve,
desarmada no jardim,
entre flores que não
sabiam do fim, e ainda
assim, ela se extinguiu.

Perdia-a.

Doce aparição,
tão súbita, quanto
ausente, rogo que um
dia retorne, não
como antes, mas como
chama que consome.

Então, enfim,
poderei morrer de amor,
como um insensato
nos braços do impossível.

— Tiago Amaral




quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Jardim

O Jardim

Esvai-se o dia,
chega o fim da tarde.
Recai o sol
sobre o horizonte.

É o jardim,
na tarde,
a se extinguir:
flores que se fecham.

O sol se despede,
como quem, aquém,
de saudade,
suspira.

Anseia o fim do dia
pela aurora das manhãs.
E o sol retorna,
adentra a janela
que se abre.

São os pássaros
que cantam.
São as flores
que despertam.
É o jardim
que volta a florir.

— Tiago Amaral



quarta-feira, 8 de abril de 2026

Entre Fotografias e Silêncio

Nas fotografias,
o seu retrato.
Memórias repentinas
invadem os pensamentos.
Será que eles não entendem?

Na escola, entre as aulas
de matemática e a hora
do recreio, nada me distrai.
A cidade hoje amanheceu
tão fria, só para me lembrar.

Na escola, seu lugar ainda
se encontra vazio.
E em meu coração
jamais esteve vazio.
Suas lembranças ainda
são frescas em meus pensamentos.

Nessas horas, o coração
bate mais forte.
A distância se torna curta
e parece que o tempo passa
mais devagar, e sinto você.

Sua opinião nunca foi
importante para seu pai.
Nada era mais importante
que o trabalho dele,
que te levou embora daqui.

E nada mais é igual sem você.
Sua antiga casa ainda vazia,
tudo tão recente que ainda
aperta o meu coração.
Na solidão do quarto,
penso em você.

Por favor, meu amor, me espere,
o tempo transcorre rápido.
Falta tão pouco tempo, então
seremos adultos.
Me guarde como antigas
fotografias,
como aquilo de mais
precioso, pois também
não sei viver sem você.

— Tiago Amaral



segunda-feira, 6 de abril de 2026

Chuva

Chuva

A tarde escurece,
é o céu, lento, a se fechar,
como pálpebra cansada
que há muito não dorme.

Do café, o vapor
quente sobe em espirais
breves, fantasma morno
contra o frio do ar.

E então a chuva
começa a cair.
E o silêncio da tarde
a se esvair,
dissolvendo-se em gotas
que escorrem pelos
cantos do tempo.

Recordo livros
que ainda não li,
páginas intactas
como promessas
adiadas de um
amor perdido.

E a chuva prossegue,
fluida, incessante:

sobre o verde vivo das folhas,
sobre as poças que refletem
o azul do céu,
sobre o teto da casa,
sobre minha alma, que
a aguarda.

É o céu que chora,
é a chuva que cai.
É seu pranto
que silencia a
tarde a se extinguir.

— Tiago Amaral




domingo, 5 de abril de 2026

Vale

Ó estações,
deslizam e retornam
como o sopro leve
sobre os veles
adormecidos.

Canta o vento,
em secreta sintonia,
tecendo harmonias invisíveis
no azul profundo do céu.

No vale, a beleza repousa
como um segredo ancestral.
O céu se ergue em silencio,
e o sol, em gesto íntimo
de amor, beija a face da terra.

Quanta vida irrompe,
latente, luminosa.
Contemplam meus olhos
este instante magico,
quase sagrado.


— Tiago Amaral





sábado, 4 de abril de 2026

Ninfa

Uma fada,
a encantar
a natureza?
És a mais bela
que vi.
Criatura gentil,
habitavas
o bosque.

Ou serias, talvez,
uma ninfa,
a mais pura
das ninfas?
Onde estás agora,
doce presença?

É por ti
que minha alma
anseia,
em sonhos
que ardem
em febre;
e o bosque
perde a vida
quando tua ausência
o silencia.

Nos olhos,
trago a esperança
de, um dia,
tornar a ver-te,
ó visão fugidia.

E que eu possa,
ao menos,
contemplar-te,
meu céu,
antes que a morte
me leve.

Sem amar-te,
morrendo, enfim,
no amor
que não vivi.

— Tiago Amaral