terça-feira, 13 de setembro de 2022

Chuva do Tempo

Por Tiago Amaral – Versão Revisada

 

O templo do céu se fechava sobre o vilarejo, e bandos de pássaros buscavam refúgio em qualquer telhado ou árvore que lhes prometesse abrigo. Ninguém poderia imaginar que aquela chuva seria diferente de todas as outras já vistas.

Nuvens densas, de um cinza profundo e opressor, acumulavam-se sobre nossas cabeças. Dentro de casa, as famílias se recolhiam em silêncio, acendendo velas, resguardando-se da tempestade que se formava lá fora. Os cães, com os rabos colhidos entre as pernas, corriam assustados em busca de algum canto seco. O vento trazia consigo o presságio de um desastre. O horizonte se fechava, o dia perdia sua cor, e uma sombra gelada repousava sobre o vilarejo.

Foi então que algo jamais visto aconteceu.

Naquela manhã, ainda fria como tantas outras, surgiu no céu um arco-íris circular, perfeito e impossível. Um círculo de cores pairava sobre nossas cabeças, como um sinal, um presságio que ninguém ousava decifrar. E, tolos que éramos, seguimos nossas vidas sem imaginar o que aconteceria quando a primeira gota caísse.

Vi da janela a primeira revelação do fenômeno: pessoas envelhecendo diante dos meus olhos, décadas inteiras gravadas em suas faces em questão de segundos. Sempre que o céu ameaçava chuva, o pânico tomava conta do vilarejo. Todos corriam para dentro, não apenas para fugir do frio, mas para escapar de algo muito pior: o tempo que corria em disparada.

Qualquer gota daquela água bastava. Bastava um respingo para que uma parte do corpo se transformasse irreversivelmente.

— Mamãe, mamãe… estou com medo! — chorava uma garotinha encolhida sob o cobertor.
— Vai ficar tudo bem, querida… basta não nos molharmos — murmurava a mãe, sem desgrudar os olhos da janela, tentando compreender o incompreensível.

Naquela tarde, a chuva enfim começou a cair, pesada, implacável. Vi meu amigo Pedro sair de casa aos 25 anos. Quando voltou, minutos depois, arrastava-se como um ancião de noventa. Viveu apenas mais dois anos, sem filhos nem netos. Foi assim que testemunhei a morte precoce de quem um dia fora jovem e cheio de vida.

Aquela chuva não apenas envelhecia pessoas: corroía também o mundo ao redor. Objetos de ferro enferrujavam em minutos. Tecidos se desfaziam. Madeira se apodrecia como se décadas de degradação passassem em instantes.

O inverno inteiro foi marcado por esse flagelo. Trovoadas e relâmpagos acompanhavam a “chuva do tempo”. Alguns tentaram fugir durante as estiadas, mas quase todos tiveram o mesmo destino. John, o filho de uma vizinha, aproveitou uma trégua para escapar de carro. Encontraram-no depois, lançado para fora do veículo após um acidente. Seu rosto molhado pela chuva se transformara diante de testemunhas, envelhecendo até a morte em questão de segundos. Sua última frase ecoava como um lamento: “Meu Deus, não!”

Perguntava-me, olhando a parte envelhecida do meu braço — tocada por uma gota que se infiltrara pelo telhado: “O que essa chuva queria nos dizer? Que mistério era esse?”

O medo moldou nossa rotina. O vilarejo, antes alegre, transformou-se em cárcere. As ruas desertas durante os temporais, as portas fechadas, as cortinas cerradas. Havia, porém, os que viam na chuva uma promessa. Alguns acreditavam que ela era divina, um caminho para outro mundo. Corriam para fora, braços abertos, entregando-se à água que lhes roubava décadas em segundos. Foi assim com Caroline, filha de Jack, consumida pela dor da perda da mãe.

— Pai, me deixe ir! — gritava, lutando contra os braços do homem que a segurava com desespero.
— Não! Eu não vou deixar você! — implorava Jack, os olhos inundados de lágrimas.

Num instante de descuido, a garota escapou. Virou-se para o pai e disse, num sussurro que partiu o coração de todos:

— Adeus, pai… eu te amo.

Jack correu atrás dela, ignorando o próprio corpo que envelhecia sob a chuva. Abraçou a filha enquanto ambos murchavam diante dos olhos horrorizados da vizinhança. Caiu com ela nos braços, dizendo, até o último instante, que a amava desde o dia em que nascera.

Não era apenas nosso vilarejo. Notícias chegavam de outras partes do mundo: o mesmo fenômeno, a mesma tragédia. Pessoas batendo às portas dos vizinhos, implorando por abrigo, envelhecendo no umbral. O número de mortos crescia a cada temporal. A população diminuía. O medo aumentava.

E assim vivemos, à mercê de um inverno que parecia eterno. O som das gotas no telhado era o toque de recolher. O trovão, um lembrete cruel de que o tempo, aquele velho senhor invisível, podia ser impiedosamente acelerado pela água que caía dos céus.

Alguns sobreviviam. Outros partiam. Todos se perguntavam: era castigo, milagre ou acaso da natureza?

Eu apenas sei que, naquela noite, enquanto contava uma história para minhas filhas adormecerem, lá fora a chuva seguia. E no fundo do meu coração, um pensamento latejava como um presságio inevitável:

A chuva passaria… mas o tempo jamais nos devolveria o que levou.

E a tarde se arrastava, pesada e cinzenta, quando o dia enfim começou a ceder lugar à noite. A chuva, incansável, variava entre o aguaceiro e o mero chuvisco, como se zombasse de nossa fragilidade. Alguns moradores, tomados pela necessidade, ousavam sair sob o céu, protegidos por capas encharcadas, guarda-chuvas trêmulos e sombrinhas que pouco faziam contra o peso invisível daquela água amaldiçoada.

Quando a noite caiu sobre o vilarejo, cada lar se fechou em silêncio, preparando-se para o jantar. Foi então que percebi algo curioso: os animais pareciam imunes ao castigo do tempo. Meus dois gatos voltaram das ruas indiferentes à tormenta, trazendo nos olhos apenas o brilho comum da noite — intactos, incólumes, como se nada houvesse acontecido.

– Querido, o jantar está pronto – chamou minha esposa com voz suave, como se quisesse afastar o medo que rondava nossas paredes.
– Já vou, meu amor – respondi, enquanto colocava nossa filha menor para dormir.

Havia registrado tudo em meu caderno: cada detalhe do fenômeno, cada morte, cada instante roubado. Eu mesmo permitira que uma gota me atingisse, apenas para provar o impossível — e até hoje carrego, no braço, a cicatriz do tempo acelerado. Naquele jantar, minha filha mais velha ergueu os olhos para mim e perguntou:

– Pai... será que um dia isso vai passar?

Olhei para o prato, depois para os olhos dela, e respondi, com a calma que não sentia:
– A chuva passa, sim, querida. Mas sempre retorna... no próximo inverno.

E assim foi. A cada estação gelada, quando os céus se fechavam, testávamos a maldição com objetos de ferro, deixando-os à mercê das gotas. Bastava um instante: logo se retorciam, enferrujados, consumidos por anos em minutos. A prova de que não era delírio, mas condenação.

Mais tarde, ao nos recolhermos, ainda chovia com fúria. No quarto de minhas filhas, a menor, de oito anos, sussurrou com a voz embargada pelo sono:
– Pai... conta uma história. Não consigo dormir.

Sentei-me entre as duas, e mesmo a mais velha, de doze anos, ouvia atenta. Inventei, então, uma fábula de guerreiros e princesas, de reinos distantes onde a chuva não passava de um detalhe. Contei até que suas respirações se tornaram profundas, e os olhos, pesados. Saí devagar, deixando-as no abrigo frágil dos sonhos, enquanto lá fora a tempestade ainda rugia.

Na madrugada, o trovão quebrou o silêncio, como um presságio final. E então, quando a manhã nasceu, fomos surpreendidos por algo quase impossível: o sol. Um sol vibrante, dourado, que atravessava as janelas e inundava a casa com um calor que não víamos há muito. Saímos todos para o quintal, deslumbrados com aquela claridade sublime. Nunca o vilarejo havia presenciado uma manhã tão bela.

Mas eu sabia — todos sabíamos — que aquela luz era apenas um intervalo. A “chuva do tempo” se fora, sim, mas apenas até o próximo inverno. E quando as nuvens voltassem a se fechar, estaríamos novamente à mercê dela... porque o tempo não esquece. O tempo sempre volta.


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